Brasil POLÍTICA EXTERNA
Lula critica ações dos EUA na Venezuela e defende multilateralismo
Em artigo no The New York Times, presidente alerta para riscos à ordem internacional e defende solução política conduzida pelos venezuelanos
19/01/2026 14h37
Por: Redação 24h News MS

Em artigo publicado neste domingo (18) no jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os bombardeios dos Estados Unidos em território da Venezuela e a captura do presidente do país, ocorridos no início de janeiro, representam “mais um capítulo lamentável da contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”.

No texto, Lula critica o que classifica como ataques recorrentes de grandes potências à autoridade da Organização das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Segundo o presidente, “quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”.

Lula afirma ainda que a aplicação seletiva das normas internacionais compromete o sistema global. “Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, que enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo”, escreveu. Para o presidente, “sem regras coletivamente acordadas, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”.

DEMOCRACIA

No artigo, Lula reconhece que chefes de Estado ou de governo, “de qualquer país”, podem ser responsabilizados por ações que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais. No entanto, ressalta que “não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”.

Segundo ele, ações unilaterais ameaçam a estabilidade global, desorganizam o comércio e os investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais. O presidente afirma ser “particularmente preocupante” que essas práticas estejam sendo aplicadas à América Latina e ao Caribe.

De acordo com Lula, elas levam violência e instabilidade a uma região que busca a paz por meio da igualdade soberana das nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. Ele destaca que, “em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos”.

AGENDA REGIONAL

Ao tratar da região, Lula afirma que a América Latina e o Caribe, com mais de 660 milhões de habitantes, têm seus próprios interesses e sonhos a defender. Em um mundo multipolar, segundo o presidente, nenhum país deveria ter suas relações externas questionadas por buscar a universalidade.

O presidente defende a construção de uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas, com foco na atração de investimentos em infraestrutura física e digital, na promoção de empregos de qualidade, na geração de renda e na ampliação do comércio regional e internacional. Para ele, a cooperação é fundamental para mobilizar recursos para combater a fome, a pobreza, o tráfico de drogas e as mudanças climáticas.

Sobre a Venezuela, Lula afirma que o futuro do país deve permanecer nas mãos de seu povo. Segundo o presidente, apenas um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, poderá levar a um futuro democrático e sustentável.

COOPERAÇÃO

No texto, Lula diz ainda que o Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelanos para proteger os mais de 1.300 quilômetros de fronteira compartilhada e aprofundar a cooperação bilateral.

Ao tratar da relação com os Estados Unidos, o presidente afirma que Brasil e EUA são as duas democracias mais populosas do continente americano. Segundo ele, unir esforços em torno de planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir. “Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.”