Brasil ALERTA NA AMAZÔNIA
Contaminação por mercúrio coloca gestantes e bebês Munduruku em risco na Amazônia
Pesquisa revela níveis do metal até 20 vezes acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde
04/06/2026 16h06
Por: Redação 24h News MS
Pesquisa da Fiocruz aponta altos níveis de mercúrio em gestantes e bebês do povo Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil)

Mulheres grávidas da Terra Indígena Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará, apresentam níveis de mercúrio no organismo muito acima dos limites considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados fazem parte do resultado preliminar do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, desenvolvido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Os números foram apresentados na terça-feira (03/06), durante a Rio Nature & Climate Week, no Rio de Janeiro. Conforme o levantamento, as gestantes monitoradas possuem, em média, 9,1 microgramas de mercúrio por grama de cabelo, índice mais de quatro vezes superior ao limite de segurança estabelecido pela OMS, que é de 2 microgramas por grama.

Entre as 195 mulheres acompanhadas pela pesquisa, 97% apresentaram níveis acima do recomendado. Em um dos casos mais graves identificados, uma gestante registrou concentração de 39,9 microgramas por grama de cabelo, cerca de 20 vezes acima do valor considerado seguro.

O estudo também acompanha os bebês dessas mulheres. Dos 134 nascimentos já monitorados, aproximadamente 90% das crianças apresentaram contaminação ainda durante a gestação, já que o mercúrio é transmitido da mãe para o bebê por meio da placenta.

Segundo o coordenador da pesquisa, Paulo Basta, os recém-nascidos apresentam concentração média de 5,8 microgramas por grama de cabelo, valor quase três vezes superior ao limite recomendado. Em um caso extremo, um bebê apresentou índice de 30,8 microgramas por grama.

Os pesquisadores alertam que o mercúrio atua como uma neurotoxina capaz de provocar danos permanentes ao sistema nervoso central. A principal preocupação está relacionada ao desenvolvimento neurológico das crianças, podendo causar atrasos cognitivos, síndromes, anomalias congênitas e outras doenças ainda em investigação.

A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku relatou que a divulgação dos primeiros resultados, em 2022, provocou forte preocupação entre as mulheres da comunidade. Segundo ela, muitas gestantes chegaram a questionar se deveriam continuar a gravidez diante dos riscos de contaminação.

A contaminação está associada ao avanço do garimpo ilegal de ouro na região. O mercúrio é utilizado para separar o ouro dos demais materiais extraídos, contaminando rios, peixes e toda a cadeia alimentar utilizada pelas comunidades indígenas.

Especialistas destacam que o consumo de peixes contaminados é a principal forma de exposição ao metal entre os povos tradicionais da Amazônia. Para as comunidades indígenas, a situação é ainda mais grave devido à dependência da pesca como principal fonte de alimentação.

Dados apresentados durante o evento apontam que já existem 751 casos confirmados de indígenas contaminados por mercúrio no Brasil, sendo 318 registrados no Pará e 378 em Roraima, principalmente em áreas afetadas pelo garimpo ilegal.

Além dos impactos à saúde, pesquisadores e representantes do Ministério Público alertam para os danos ambientais provocados pela atividade garimpeira, incluindo desmatamento, degradação dos rios, conflitos territoriais e ameaças aos povos indígenas que vivem na região amazônica.