Um estudo publicado nesta segunda-feira (20/07) na revista Nature Microbiology revelou, pela primeira vez, como o vírus da influenza A, responsável pela gripe, modifica o funcionamento das células humanas para favorecer sua multiplicação. A descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas contra a doença.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EMBL), na Alemanha, em parceria com pesquisadores de outras instituições. Os pesquisadores conseguiram mapear, em detalhes, como as proteínas do vírus interagem com as proteínas das células humanas durante a infecção.
Para realizar o estudo, a equipe utilizou uma técnica capaz de observar essas interações diretamente em células infectadas ainda intactas, sem a necessidade de rompê-las em laboratório. Em seguida, os resultados foram combinados com modelos computacionais para reconstruir o funcionamento dessas ligações.
Os cientistas também recorreram a uma versão adaptada do AlphaFold, sistema de inteligência artificial desenvolvido para prever a estrutura de proteínas, permitindo compreender melhor o comportamento do vírus dentro das células.
Segundo o estudo, o vírus utiliza pelo menos duas estratégias principais para assumir o controle da célula.
A primeira envolve a hemaglutinina, proteína localizada na superfície do vírus que permite sua entrada nas células. Os pesquisadores descobriram que proteínas da própria célula ajudam essa molécula a adquirir a forma necessária para que o vírus continue seu ciclo de multiplicação.
A segunda estratégia ocorre no núcleo celular. O vírus desestrutura pequenas formações chamadas paraspeckles, liberando proteínas que passam a ser utilizadas na produção de novas cópias virais. Além disso, essa alteração pode reduzir parte das defesas naturais da célula contra a infecção.
Os pesquisadores afirmam que a metodologia desenvolvida poderá ser aplicada ao estudo de outros vírus, incluindo agentes com potencial para causar futuras pandemias, como o vírus da gripe aviária H5N1.
A expectativa é que o entendimento mais detalhado da interação entre vírus e células humanas permita identificar novos alvos para medicamentos capazes de impedir a multiplicação viral e tornar os tratamentos mais eficazes.