A nova tributação imposta pela China sobre parte das importações de carne bovina brasileira pode provocar mudanças em toda a cadeia produtiva de Mato Grosso do Sul. Após o Brasil atingir a cota anual de exportação de 1,106 milhão de toneladas no início de julho, os embarques que excederem esse volume passaram a ser taxados em 67%, resultado da soma da tarifa fixa de 12% com uma sobretaxa de 55%.
Como a China é o principal destino da carne bovina produzida em Mato Grosso do Sul, especialistas avaliam que a medida reduz a competitividade do produto brasileiro naquele mercado e deve levar frigoríficos a buscar novos compradores ou ampliar a oferta no mercado interno.
Segundo o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Thiago Bernardino de Carvalho, os efeitos tendem a atingir toda a cadeia produtiva, já que a pecuária de corte trabalha com planejamento de longo prazo e a produção não pode ser interrompida rapidamente.
Uma das alternativas para enfrentar a redução das compras chinesas é ajustar o manejo dos animais e ampliar as exportações para outros países. No entanto, o pesquisador ressalta que dificilmente novos mercados conseguirão absorver o volume que deixará de ser comprado pela China.
Os Estados Unidos aparecem atualmente como o segundo maior importador da carne bovina brasileira, mas o volume adquirido ainda está distante da demanda chinesa. A expectativa é que cerca de 500 mil toneladas deixem de ser exportadas acima da cota estabelecida.
O especialista também alerta que algumas indústrias, especialmente as mais dependentes do mercado chinês, poderão recorrer a férias coletivas ou reduzir temporariamente o ritmo de produção caso não consigam redirecionar as exportações.
Para o consumidor, existe a possibilidade de redução no preço da carne bovina, mas o efeito não deve ser imediato nem tão intenso.
Segundo Thiago Bernardino de Carvalho, normalmente há um intervalo de dois a três meses entre as oscilações no preço do boi gordo e o repasse ao consumidor final. Assim, uma eventual queda poderá começar a ser percebida a partir de agosto.
Além disso, fatores como o planejamento da produção, o ajuste da oferta pelos pecuaristas e o armazenamento de carne congelada pelos frigoríficos podem reduzir a intensidade dessa queda nos supermercados e açougues.
Apesar das incertezas, especialistas avaliam que os próximos meses serão decisivos para medir a capacidade da indústria brasileira de conquistar novos mercados e minimizar os impactos da redução das exportações para a China.