Brasil ESTRESSE PREOCUPA
Estresse na adolescência pode afetar o cérebro adulto, diz estudo
Pesquisa da USP com ratos identificou alterações persistentes em circuitos cerebrais ligados às emoções após exposição ao estresse durante a adolescência.
15/08/2026 08h39
Por: Redação 24h News MS
Estudo da USP identificou alterações persistentes no cérebro de ratos expostos ao estresse durante a adolescência. (Foto: Reprodução/Metrópoles)

O estresse durante a adolescência pode provocar alterações no cérebro que permanecem até a vida adulta, segundo estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). A pesquisa identificou mudanças persistentes em circuitos cerebrais relacionados às emoções, tomada de decisões e comportamento. 

O trabalho comparou os efeitos do estresse em ratos adolescentes e adultos e apontou maior vulnerabilidade durante a adolescência, período em que o cérebro ainda está em processo de amadurecimento.

ALTERAÇÕES PERMANECERAM NA VIDA ADULTA

Os pesquisadores observaram que os ratos submetidos ao estresse durante a adolescência apresentaram mudanças persistentes no córtex pré-frontal medial, região envolvida no controle das emoções, na tomada de decisões e no comportamento.

Nos animais adultos submetidos ao mesmo protocolo, as alterações foram principalmente temporárias, com maior capacidade de recuperação após a exposição ao estresse. 

Segundo Felipe V. Gomes, coordenador do estudo, os resultados indicam que a exposição ao estresse em uma fase mais jovem pode produzir efeitos mais duradouros sobre o funcionamento cerebral.

ESTUDO ANALISOU EQUILÍBRIO ENTRE NEURÔNIOS

Durante o experimento, os cientistas analisaram o equilíbrio entre neurônios glutamatérgicos, responsáveis por estimular a atividade cerebral, e neurônios GABAérgicos, que atuam reduzindo essa atividade.

Nos ratos expostos ao estresse durante a adolescência, as alterações permaneceram mesmo depois que os animais chegaram à fase adulta.

Entre os principais resultados estavam maior atividade dos neurônios excitatórios, alterações nos neurônios inibitórios, desequilíbrio entre os sistemas de excitação e inibição e redução persistente das ondas gama, relacionadas à comunicação coordenada entre neurônios e a funções cognitivas. 

RESULTADO NÃO SIGNIFICA DOENÇA MENTAL

Os pesquisadores ressaltam que o estudo não significa que adolescentes submetidos ao estresse necessariamente desenvolverão transtornos mentais.

A pesquisa foi realizada em ratos e investigou mecanismos biológicos que podem aumentar a vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Dessa forma, os resultados não estabelecem uma relação direta de causa e efeito em seres humanos. 

As alterações observadas, porém, também aparecem em estudos relacionados a transtornos psiquiátricos, o que pode ajudar a compreender como experiências estressantes durante a adolescência influenciam o funcionamento cerebral posteriormente.

ADOLESCÊNCIA É FASE DE MAIOR VULNERABILIDADE

Para os pesquisadores, os resultados reforçam que a adolescência é um período especialmente sensível aos efeitos do estresse.

A identificação de pessoas mais vulneráveis poderia, no futuro, contribuir para estratégias de prevenção e acompanhamento, especialmente diante de situações que envolvam exposição prolongada ao estresse.

“Se conseguirmos identificar indivíduos com a responsividade aumentada ao estresse, e atuarmos preventivamente, dando suporte para lidar com situações diversas, podemos frear o desenvolvimento desses transtornos”, afirmou Felipe V. Gomes.