O agronegócio de Mato Grosso do Sul passou por uma profunda transformação nos últimos anos. Além da expansão da produção agropecuária, matérias-primas que antes deixavam o Estado praticamente sem processamento passaram a ser industrializadas em território sul-mato-grossense, ampliando a geração de empregos, renda e arrecadação.
PRODUÇÃO DE SOJA CRESCE 74,7%
Segundo dados do Projeto SIGA, do Governo de Mato Grosso do Sul, entre as safras 2017/18 e 2025/26, a área plantada de soja passou de 2,70 milhões para 4,62 milhões de hectares, crescimento de 71,1%.
No mesmo período, a produtividade avançou de 59,2 para 60,4 sacas por hectare, alta de 2%. A produção cresceu ainda mais: saltou de 9,58 milhões para 16,74 milhões de toneladas, aumento de 74,7%.
A expansão também alcançou outras commodities e veio acompanhada de uma diversificação da economia rural. O tradicional binômio boi-soja perdeu espaço como única referência do campo, enquanto novas cadeias ganharam importância.
AGROINDÚSTRIA AGREGA VALOR À PRODUÇÃO
Para o ex-secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, um dos principais pontos dessa transformação está justamente no processamento das matérias-primas dentro do Estado.
Verruck observa que o orçamento de Mato Grosso do Sul era de aproximadamente R$ 12 bilhões em 2014 e atualmente chega a R$ 25 bilhões. Segundo ele, parte desse avanço está relacionada à agregação de valor aos produtos.
“A agroindustrialização faz com que a gente gere massa salarial, aumento da renda média e mais tributos. É a famosa agregação de valor”, explicou.
Um dos principais exemplos é a celulose, atualmente entre os produtos de maior destaque nas exportações de Mato Grosso do Sul. Diferentemente de uma matéria-prima exportada sem processamento, a celulose passa por uma cadeia industrial que movimenta fábricas, trabalhadores, fornecedores, transportadoras e serviços.
Na soja, Verruck destaca que ainda existe espaço para ampliar o processamento. Em vez da exportação apenas do grão, indústrias podem transformá-lo em óleo, farelo, proteína e outros insumos destinados à cadeia de alimentos.
Na carne bovina, que também ocupa posição de destaque nas exportações estaduais, a avaliação é de que ainda há espaço para avançar no beneficiamento e agregar mais valor ao produto.
CELULOSE MULTIPLICA EMPREGOS E RENDA
O eucalipto é outro exemplo dessa lógica. Verruck compara a diferença entre simplesmente comercializar a madeira triturada e transformá-la em celulose.
Em uma comparação hipotética apresentada pelo ex-secretário, se o cavaco tivesse valor equivalente a 100, a celulose poderia alcançar 500.
“Só que esse produto deixou 8 mil empregos no setor, deixou tributo, deixou impacto no comércio local”, explicou Verruck ao abordar o chamado efeito multiplicador da industrialização.
Segundo ele, a expansão da indústria de transformação também contribuiu para o crescimento da renda média e para a abertura de postos de trabalho.
CADEIA MOVIMENTA OUTROS SETORES
Os efeitos não ficam restritos às fábricas. O aumento da produção de grãos, por exemplo, exige investimentos em armazenamento, manutenção de máquinas, equipamentos, transporte e serviços especializados.
O milho também ganhou novas possibilidades de aproveitamento. Além da alimentação animal, o grão é utilizado na produção de etanol.
Depois do processamento, ainda é obtido o DDG, subproduto rico em proteína utilizado na alimentação de bovinos, suínos e aves. Dessa forma, uma mesma cadeia produtiva passa a atender diferentes segmentos da economia.
TRÊS LAGOAS E RIBAS VIRAM REFERÊNCIAS
O administrador e consultor Aldo Barrigose também destaca o avanço do chamado Vale da Celulose, que transformou municípios como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo em referências nacionais no setor.
“Mostra que MS tem terra superagricultável, que produz matéria-prima, a qual é industrializada e exportada com valor agregado e uso de tecnologia”, afirmou.
Segundo Barrigose, outro diferencial está na produtividade das florestas plantadas. Em Mato Grosso do Sul, o eucalipto pode ser colhido, em média, entre cinco e sete anos, enquanto em alguns países europeus o ciclo pode chegar a 20 ou 30 anos.
PECUÁRIA PRODUZ MAIS EM MENOS ÁREA
Na pecuária de corte, Barrigose aponta outro movimento. Mesmo com redução do rebanho e da área ocupada pelo gado, a produção de proteína aumentou ao longo da última década.
Para o consultor, isso demonstra o avanço tecnológico e o aumento da produtividade no campo.
A integração entre diferentes cadeias também ganha importância. Produtos e subprodutos gerados pelas indústrias de milho e etanol, por exemplo, retornam ao campo e ajudam na alimentação de bovinos, aves e suínos.
CITRICULTURA SURGE COMO NOVA FRONTEIRA
A diversificação do agro sul-mato-grossense também começa a alcançar a citricultura, com novas áreas em implantação no Estado.
A expectativa é que, além do cultivo das frutas, Mato Grosso do Sul consiga atrair estruturas de processamento, permitindo que uma parcela maior da riqueza gerada pela cadeia permaneça no próprio Estado.