“É hanseníase”. O nome da doença historicamente marcada por preconceito e a convicção da médica que deu o diagnóstico prévio desestabilizaram Simone Oliveira Ortiz, que só vislumbrou uma saída, negar a realidade. “Não, não é”, disse, enfática. Ela tinha apenas 21 anos e ainda não havia associado as dores intensas nas articulações, os nódulos na pele e o cansaço constante à hanseníase. Sete anos depois, hoje aos 30, Simone está curada, leva uma vida normal e tem muita energia para a rotina intensa como professora de Educação Infantil.
O sucesso do tratamento de Simone foi possível graças ao diagnóstico feito ainda na fase inicial da doença, fator determinante para ampliar as chances de cura. A história da professora ilustra a importância da Semana Estadual de Conscientização, Prevenção e Combate à Hanseníase e à Verminose, instituída pela Lei 4.436/2013. A normativa, aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul há 12 anos, soma-se ao Janeiro Roxo, iniciativa nacional de enfrentamento à hanseníase. As campanhas são realizadas no início do ano, devido aos dias Nacional e Mundial contra a doença, respectivamente em 26 e no último domingo de janeiro.
Essas datas e campanhas buscam informar a população sobre a doença, o combate ao preconceito, a identificação precoce dos sintomas e a procura por atendimento médico. Esses objetivos são reforçados pelo deputado Zé Teixeira (PSDB), autor da Lei 4.436/2013. Para ele, o preconceito ainda é um dos maiores obstáculos no enfrentamento da hanseníase, pois faz com que muitas pessoas escondam os sintomas e retardem a busca por atendimento. “Esse silêncio leva a diagnósticos tardios, quando a doença já causou danos irreversíveis”, considera.
O parlamentar ressalta que, no caso da hanseníase, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as chances de cura e menores os riscos de sequelas permanentes e de transmissão. Já em relação às verminoses, chama atenção para os impactos no desenvolvimento físico e nutricional, especialmente de crianças que vivem em regiões com deficiência de saneamento básico. “A campanha também mobiliza ações simples e eficazes, como higiene, tratamento adequado e educação em saúde”, afirma.
“Hoje existe tratamento, tem cura”, diz professora curada da hanseníase
O diagnóstico em tempo oportuno mudou o rumo da história de Simone. Antes disso, ela passou quase um ano tratando os sintomas como alergia. “Eu fazia exames e ninguém conseguia dizer o que eu tinha. Nem os médicos conseguiam dar um diagnóstico correto”, relembra.
A situação mudou quando a professora foi atendida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) por uma médica que havia trabalhado no Hospital São Julião, referência no tratamento da hanseníase. Orientada, Simone buscou atendimento especializado no Hospital São Julião, onde a suspeita foi confirmada após avaliação clínica e biópsia.
Com o organismo já debilitado, apresentou anemia severa e precisou ficar internada por cerca de um mês. Depois disso, entrou na fase de tratamento ambulatorial, com acompanhamento regular da equipe médica. Hoje, está curada e atua normalmente como professora da rede municipal.
Ao compartilhar sua história, Simone reforça a importância da informação e do combate ao preconceito. “As pessoas precisam perder essa ideia de que é uma doença que exige isolamento. Hoje existe tratamento, existe cura”, destaca.
Hanseníase no Brasil e em MS, alguns números
De acordo com relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil registrou 22.129 novos casos de hanseníase em 2024, permanecendo em segundo lugar mundial em notificações, atrás apenas da Índia. Dados do Datasus mostram que, de 2016 a agosto de 2025, o país contabilizou 290.041 casos novos. No mesmo período, Mato Grosso do Sul registrou 4.376 notificações da doença.
Apenas em 2025, até agosto, foram registrados 14.964 novos casos no Brasil e 192 em Mato Grosso do Sul.
“Endemia oculta”, define especialista
O dermatologista e hansenólogo Augusto Afonso de Campos alerta que os números não refletem totalmente a realidade. Segundo ele, o maior desafio é o diagnóstico precoce, já que não há exame específico que certifique a doença, sendo fundamental o conhecimento clínico.
O tratamento é eficaz, gratuito e disponibilizado pelo SUS. Quando iniciado precocemente, garante a cura e interrompe a transmissão.
“Hábitos de higiene e saneamento ajudam a evitar verminoses”
Além da hanseníase, o especialista chama atenção para as verminoses, que continuam sendo um problema relevante de saúde pública. A prevenção envolve hábitos básicos de higiene, consumo de água tratada, saneamento adequado e ações de educação em saúde.
Semana Estadual
Instituída pela Lei 4.436/2013, a Semana Estadual de Conscientização, Prevenção e Combate à Hanseníase e à Verminose é realizada anualmente em janeiro em Mato Grosso do Sul, com ações educativas e preventivas em todo o Estado.
Serviço
Caso tenha sintomas suspeitos, procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima. Em Mato Grosso do Sul, o Hospital São Julião é referência no atendimento pelo SUS.
Endereço: Rua Lino Villacha, 1250, Campo Grande
Telefone: (67) 3358-1500