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Covid-19 deixou 149 mil crianças e adolescentes órfãos em 2020 e 2021

Se considerados avós e outros cuidadores, número sobe para 280 mil

Por: Redação 24h News MS
26/10/2025 às 14h28
Covid-19 deixou 149 mil crianças e adolescentes órfãos em 2020 e 2021

Além dos mais de 700 mil mortos pela covid-19 no Brasil, há outras 284 mil vítimas indiretas: crianças e adolescentes que perderam os pais, avós ou outros familiares mais velhos que exerciam papel de cuidado em suas residências. O número se refere somente a 2020 e 2021, os piores anos da pandemia. Entre elas, 149 mil perderam o pai, a mãe ou os dois.

A estimativa é de pesquisadores ingleses, brasileiros e americanos, que acabam de lançar um estudo para demonstrar não somente a “magnitude da orfandade no Brasil”, como também “as grandes desigualdades entre os estados".

Uma das autoras do estudo, a professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo Lorena Barberia destaca que os impactos de uma emergência sanitária são identificados primeiro entre as vítimas diretas, mas há também aqueles que são afetados por essas mortes.

“Nós quisemos olhar a vulnerabilidade das pessoas que dependem de quem faleceu. Achamos super importante lembrar que as pessoas acima de 60 anos não só tinham mais chance de morrer, mas, muitas vezes, tinham um papel na estrutura familiar muito decisivo. Muitas crianças e adolescentes dependiam dessas pessoas. Então, pensamos que tínhamos que considerar essas estimativas, tanto de pais e mães como desses responsáveis”.

A partir de modelos estatísticos, alimentados por dados demográficos, como a taxa de natalidade e o excesso de mortalidade em 2020 e 2021, a pesquisa chegou às seguintes estimativas:

  • Cerca de 1,3 milhão de crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, perderam um ou ambos os pais, ou algum cuidador com quem viviam, por razões diversas.

  • Dessas, 284 mil se tornaram órfãs ou perderam o cuidador por causa da covid-19.

  • Em relação apenas às mortes por covid-19, 149 mil crianças e adolescentes ficaram órfãos e 135 mil perderam outro familiar cuidador.

  • 70,5% dos órfãos perderam o pai, 29,4% a mãe, e 160 crianças e adolescentes perderam ambos.

  • A cada 1 mil crianças, 2,8 perderam um ou ambos os pais ou cuidadores por covid-19.

  • Os estados com maiores taxas de orfandade são Mato Grosso (4,4), Rondônia (4,3) e Mato Grosso do Sul (3,8).

ÓRFÃOS REAIS

Em 2021, Ana Lúcia Lopes, hoje com 50 anos, perdeu o companheiro, o fotógrafo Cláudio da Silva, o que fez com que seu filho, Bento, de 4 anos, ficasse órfão de pai. Ela lembra que esses números representam crianças reais que continuam sofrendo com a ausência dos familiares.

“Eu contei para o Bento logo que aconteceu. A gente tinha um cachorrinho que morreu um pouco antes. Aí, eu falei para ele que o cachorrinho precisava de alguém lá no céu para cuidar dele e que o papai tinha ido fazer isso. Às vezes ele me via chorando e falava: ‘Mãe, você tá chorando por causa do meu pai?’”.

VIOLAÇÕES DE DIREITOS

Durante a pandemia, a promotora de justiça de Campinas (SP), Andréa Santos Souza, percebeu o aumento de pedidos de guarda por tios, avós e parentes, após pais falecerem por covid. “Essas crianças estavam ficando órfãs sem uma representação legal. Pedi aos cartórios que me mandassem todas as certidões de óbito das pessoas que morreram por Covid e que deixaram herdeiros menores”, relatou.

O levantamento resultou em quase 500 crianças identificadas como órfãs em um primeiro momento. O trabalho incluiu localizar essas famílias, garantir acesso a programas sociais e verificar situações de risco, como separação de irmãos, adoções ilegais, exploração e abuso.

Cruzamento de dados

Com o cruzamento das informações de cartórios, a Arpen/Brasil verificou que entre março de 2020 e setembro de 2021, 12,2 mil crianças de até 6 anos ficaram órfãs por causa da covid-19.

A professora Lorena Barberia reforça que, mesmo após o fim da pandemia, é necessário manter políticas públicas voltadas a essas crianças:
“Não houve um programa desenhado para essas crianças especificamente, e a sociedade não estava acostumada a essa magnitude de órfãos. Precisamos fortalecer as políticas existentes e criar novas para esse grupo.”

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