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MS pode se tornar pioneiro em tecnologia de monitoramento contínuo da glicose

Audiência pública na ALEMS debate implantação de programa estadual que pode beneficiar pacientes com diabetes tipo 1

Por: Redação 24h News MS
03/12/2025 às 18h03
MS pode se tornar pioneiro em tecnologia de monitoramento contínuo da glicose
Audiência pública na ALEMS destaca tecnologia de sensores como avanço no tratamento do diabetes em MS (Foto - Wagner Guimarães)

Um alerta no aplicativo do celular informou a Lenine de Oliveira Rocha Júnior que o nível de glicose de sua filha, Eduarda de Oliveira, de oito anos, estava alterado. A menina foi trazida até o pai, que aplicou imediatamente o medicamento necessário para estabilizar o quadro. A cena, acompanhada pelos participantes da audiência pública Tecnologia e Dignidade no Tratamento do Diabetes, realizada na tarde desta quarta-feira (3) no plenarinho Nelito Câmara, da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS), evidenciou a importância do debate.

A rápida solução só foi possível graças ao monitoramento contínuo proporcionado pelo sensor que Eduarda utiliza — uma tecnologia capaz de emitir alertas em tempo real e evitar episódios graves de hipo ou hiperglicemia. A segurança possibilitada à Eduarda e sua família pelo sensor de glicose poderá se estender às cerca de 300 mil pessoas com diabetes tipo 1 de Mato Grosso do Sul. Foi discutida na audiência a implantação de um programa estadual para oferecer, gratuitamente, a tecnologia aos pacientes com diabetes em todos os municípios do estado. Mato Grosso do Sul poderá ser pioneiro no país nessa iniciativa.

A audiência foi proposta pelo deputado Paulo Corrêa (PSDB), 1º secretário da ALEMS, em parceria com o vereador por Campo Grande, Ronilço Guerreiro (Podemos). O encontro reuniu especialistas, gestores públicos, representantes de entidades e pacientes para discutir o uso da tecnologia como política pública de saúde de Mato Grosso do Sul. No debate, foi avaliada a incorporação dos sensores de glicose, dispositivos capazes de monitorar continuamente os níveis glicêmicos sem necessidade de múltiplas picadas nos dedos. O equipamento, aplicado sob a pele, mede a glicose no fluido intersticial e envia as informações para um leitor ou aplicativo no celular, permitindo previsões de variações, alertas de riscos e maior segurança no tratamento.

“A gente tem que olhar a diabetes como um programa especial da saúde”, afirmou o deputado Paulo Corrêa ao final da audiência. Com reunião já agendada para fevereiro, Mato Grosso do Sul poderá iniciar o trâmite necessário para a efetivação da política pública de fornecimento de sensores digitais de monitoramento de glicose já no próximo ano, como informou o parlamentar.

O deputado lembrou que o debate teve início na Câmara Municipal de Campo Grande, com o vereador Ronilço Guerreiro, e ganhou força na audiência desta tarde. Segundo ele, o apoio da Secretaria de Estado de Saúde é fundamental para fortalecer a construção do projeto.

Ao fim do encontro, ficou encaminhado, conforme sistematizado pelo deputado Paulo Corrêa, que o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso do Sul (Cosems/MS), em conjunto com especialistas que participaram da audiência, levantará números precisos de pacientes e dos valores necessários para a implantação do programa. O vereador Ronilço propôs implantar um projeto piloto em Campo Grande, uma vez que já dispõe de cerca de R$ 500 mil em emendas para custear a iniciativa.

A mesa de autoridades foi composta pelo deputado Paulo Corrêa; pelo vereador Ronilço Guerreiro; por Andreia Ferreira da Costa, coordenadora da Coordenadoria de Doenças Crônicas da Secretaria de Estado de Saúde (SES); pelo defensor público Mateus Augusto Sutana e Silva; por Bárbara Medeiros Dantas, gerente técnica de Doenças Crônicas da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) de Campo Grande; e por Ricardo Ayache, presidente da Cassems.

O debate contou com quatro palestras que aprofundaram aspectos médicos, sociais e econômicos relativos ao diabetes.

Diagnóstico correto e monitoramento contínuo são essenciais
A endocrinologista Bianca Rahal Paraguassu, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia – Regional MS, explicou as diferenças entre os tipos de diabetes e reforçou a importância do diagnóstico adequado para orientar o tratamento. Destacou que o diabetes tipo 1, mais comum em crianças e adolescentes, pode levar rapidamente a quadros graves como cetoacidose diabética, enquanto o tipo 2, mais prevalente em adultos, costuma ser silencioso e difícil de detectar precocemente.

Bianca enfatizou que manter a glicose próxima do normal é fundamental para prevenir complicações cardiovasculares, renais e neurológicas. Por isso, defendeu a incorporação dos sensores de monitoramento contínuo como ferramenta indispensável para melhorar o controle da doença e reduzir riscos associados a hipo e hiperglicemia.

Controle seguro em crianças depende de acesso à tecnologia
A endocrinologista pediátrica Ana Carolina Pereira Meneguite apresentou evidências sobre o tratamento do diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes, reforçando que a meta ideal é manter a hemoglobina glicada abaixo de 7%. Segundo ela, alcançar essa faixa reduz danos cognitivos e o risco de complicações futuras, mas exige acompanhamento rigoroso e ajustes frequentes no tratamento.

Ana Carolina destacou que os sensores de glicose são essenciais para dar segurança às famílias, especialmente durante a noite, quando episódios de hipoglicemia são mais difíceis de perceber. A tecnologia permite identificar tendências e prevenir alterações abruptas, o que justifica a necessidade de incorporar o acesso aos sensores como política pública para crianças e adolescentes com diabetes tipo 1.

Sensores ampliam autonomia e qualidade de vida das famílias
A nutricionista e educadora em diabetes Walkíria da Cruz Vieira Soares relatou o impacto dos sensores na rotina dos pacientes. Explicou que os dispositivos enviam leituras contínuas ao celular, reduzindo drasticamente a necessidade de picadas diárias no dedo e oferecendo previsibilidade sobre variações de glicose. Apontou que o custo médio mensal de cerca de R$ 560 dificulta o acesso para grande parte das famílias.

Walkíria também apresentou dados sobre o diabetes no Estado, que pode afetar direta e indiretamente quase 900 mil pessoas. Estudos mostram melhora significativa nos índices glicêmicos após três meses de uso dos sensores e redução do risco de internações. Para ela, a tecnologia representa não apenas mais segurança clínica, mas também alívio emocional para pais e cuidadores.

Cenário estadual e estimativa de custos para o programa
O tesoureiro e secretário da Associação de Diabetes Mellitus Tipo 1 de Campo Grande, Lenine de Oliveira Rocha Júnior, pai da pequena Eduarda, apresentou um panorama da prevalência do diabetes tipo 1 no Estado, estimada em 5.849 pessoas, incluindo 1.170 crianças e adolescentes. Ele detalhou o custo de um programa estadual voltado ao público infantojuvenil, calculado em cerca de R$ 750 mil por mês apenas com sensores.

Lenine destacou que, no primeiro mês, o Estado teria ainda o custo adicional dos leitores, totalizando aproximadamente R$ 9,38 milhões por ano para atender todos os pacientes jovens. Ele alertou para a necessidade de capacitação de profissionais e suporte técnico contínuo. Para ele, investir em sensores significa garantir dignidade, autonomia e mais segurança às famílias.

Serviço
As apresentações dos palestrantes estão disponíveis nos links indicados no site da ALEMS. O evento contou com cobertura da Comunicação Institucional da Casa e teve transmissão em vídeo.

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