
Pouco mais de um mês após iniciar a construção de um ramal ferroviário de 47 quilômetros para ligar a futura fábrica de celulose em Inocência à malha da Ferronorte, a Arauco deu mais um passo no plano logístico do projeto ao assinar um contrato estimado em R$ 770 milhões com a Randoncorp para a compra de aproximadamente 750 vagões ferroviários.
A formalização do acordo foi comunicada ao mercado pela Randoncorp na noite de segunda-feira (5). Segundo o aviso, a empresa fornecerá um “volume relevante” de vagões, com fabricação e entregas previstas ao longo de 19 meses, entre maio de 2026 e novembro de 2027. Embora o número exato não tenha sido detalhado no comunicado, a Arauco já havia indicado a necessidade de cerca de 750 unidades.
No comunicado, a Randoncorp destacou sua experiência no setor ferroviário, informando que já produziu mais de 13 mil vagões para operadores do Brasil e do exterior. O grupo tem sede em Caxias do Sul (RS) e mantém a produção dos vagões em Araraquara (SP). O contrato foi divulgado em razão do valor elevado e por representar um reforço relevante na carteira da empresa, que enfrentou retração nos negócios em 2025.
A Arauco estima investir cerca de R$ 1 bilhão na construção da ferrovia e mais R$ 1,4 bilhão na compra de 23 locomotivas e aproximadamente 750 vagões. Ao todo, o aporte destinado exclusivamente à estrutura ferroviária soma R$ 2,4 bilhões, valor que não estava previsto no projeto original da fábrica, orçado em cerca de R$ 25 bilhões.
A expectativa é escoar uma produção anual de 3,5 milhões de toneladas de celulose, com início previsto a partir do segundo semestre de 2027. Para atender esse volume, a operação deverá despachar diariamente um trem com cerca de 100 vagões até o Porto de Santos, em um trajeto aproximado de 1,1 mil quilômetros.
Cada vagão deverá transportar o equivalente à carga de duas carretas bi-trem. Em declaração anterior, o responsável pela área de transportes da Arauco, Alberto Pagano, destacou que o Brasil possui soluções logísticas avançadas para o setor de celulose, com vagões capazes de transportar até 96 toneladas, capacidade superior à média observada no Chile, onde fica a sede da empresa.
A fábrica de Inocência está em construção desde abril do ano passado, a cerca de 50 quilômetros da área urbana do município, às margens da MS-377 e do rio Sucuriú. O ramal ferroviário está sendo implantado em paralelo à rodovia. A licença de instalação do projeto Sucuriú autoriza produção de até 5 milhões de toneladas por ano, o que reforça a visão de longo prazo do empreendimento.
Para a implantação dos trilhos, aproximadamente 400 hectares distribuídos em cerca de 40 propriedades foram declarados de utilidade pública. No trecho em que a ferrovia cruza o córrego São Mateus, está prevista a construção de uma ponte de 270 metros, com o objetivo de reduzir a movimentação de solo e a supressão vegetal.
Além do escoamento da celulose, a Arauco também planeja a logística de transporte da madeira que abastecerá a fábrica. A estimativa é empregar cerca de 1,5 mil motoristas para operar 350 caminhões, realizando aproximadamente 600 viagens diárias com toras de eucalipto até a unidade industrial.
As florestas da empresa somam 400 mil hectares, distribuídas em dez municípios no entorno de Inocência, com distância média de 110 quilômetros até a fábrica. Para sustentar a produção plena a partir de 2028, a Arauco informa que planta cerca de 65 mil hectares de eucalipto por ano, com ciclo médio de corte mecanizado de seis anos.
Com a nova unidade em Inocência, Mato Grosso do Sul consolida-se como principal polo de celulose do país. A produção anual do Estado deve subir de 7,6 milhões para cerca de 11 milhões de toneladas. Atualmente, Três Lagoas abriga duas fábricas em operação desde 2009 e 2012. Em 2024, a Suzano inaugurou uma unidade em Ribas do Rio Pardo, enquanto a Eldorado, em Três Lagoas, planeja duplicar a produção. A Bracell também anunciou o início das obras de uma fábrica em Bataguassu a partir de fevereiro do próximo ano.